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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

FILME> TUBARÃO (Jaws, 1975)


Título Original> Jaws
Direção> Steven Spielberg
Roteiro> Peter Benchley, Carl Gottlieb
Elenco> Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss
Páis/Ano de Produção> EUA/1975
Produção> Universal Pictures
Distribuidor> Universal
Lançamento nos EUA> 22 de Junho de 1975
Lançamento no Brasil> 07 de Julho de 1975
Duração> 124 minutos
Orçamento> 8 milhões
Bilheteria Acumulada> 430 milhões (mundialmente)

Se o leitor perguntar quais foram os filmes que me levaram para este apaixonante vício cinematográfico, com certeza Tubarão vai estar no topo da lista. Ainda tenho lembranças daquelas infinitas e vazias tardes em frente à TV e o dia em que não me movi durante duas horas – algo bastante raro para uma criança entre seus sete e oito anos. Naquele nível máximo de simbiose com o sofá, estava boquiaberto com a cena de uma bela loira sendo arrastada violentamente por alguma coisa no mar. Entre seus gritos suplicantes por ajuda, uma trilha sonora angustiante ia, pouco a pouco, tomando conta do ambiente: aquele era o prenúncio da morte. E tudo nos 10 minutos iniciais. – Nossa! Pensei, fascinado e paralisado – Esse é dos bons! Neste dia experimentei, inconscientemente, toda a força do cinema hollywoodiano. Mal sabia que estava diante de um clássico que iniciaria uma era e revelaria um dos mais talentosos e criativos diretores de todos os tempos: Steven Spielberg. Sem dúvida nenhuma comecei com o pé direito.


Mas, segundo palavras do seu criador, “Tubarão é um divertido filme de se ver, mas não é tão divertido de se fazer”. Baseado no best-seller de Peter Benchley, o roteiro adaptado, escrito a quatro mãos, foi entregue a Spielberg, visto como um jovem promissor, que tinha no currículo somente alguns curtas e um filme feito direto para a televisão. Logo, se qualquer coisa desse errado não seria tão difícil achar o culpado. Mas a maior dor de cabeça do diretor, além do prazo e orçamento estourados, foi o protagonista do longa: Bruce, o tubarão mecânico construído para o filme, que teimava em não funcionar durante as filmagens. Há várias imagens na internet dos momentos de descanso da equipe enquanto o temperamental Bruce ficava cercado por mecânicos. Outro que tirou Spielberg do sério foi John Willians, responsável pela trilha sonora. Com os prazos no limite, Willians teve dificuldades em fazer o jovem diretor acreditar no seu trabalho final. Quando o músico tocou pela primeira vez o que havia vislumbrado para anunciar os ataques, Spielberg acreditou que aquilo era uma piada. Foi preciso ele ouvir uma série de vezes para entender que ali estava a alma e, posteriormente, a marca registrada de seu trabalho. 


Prontos para a estréia, mas não certos do sucesso, Tubarão chegou aos cinemas em 1975 com toda equipe receosa que a audiência caísse na gargalhada ao ver o grande peixe mecânico. Ledo engano. Tubarão foi o primeiro filme americano a ultrapassar a marca dos 100 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias e forjou o termo blockbuster ao denominar o fenômeno das enormes filas, que dobravam esquinas, formadas por pessoas nas portas dos cinemas para assistirem ao filme. Todas ansiosas para sentir aquele frio na barriga durante longos 120 minutos. 


Analisando friamente, Tubarão foi um grande tiro no escuro. Perceba: o enredo se passa em uma pequena cidade litorânea que se vê ameaçada por um grande tubarão branco que só vemos, praticamente, no final do filme. Quais as chances das pessoas embarcarem nisso, principalmente aquelas que, à época, mal conheciam o mar e muito menos tinham noção do que era um tubarão? Filmes de ficção têm seus seres gosmentos, os slashers, têm sua violência escatológica, mas não menos aterrorizante, baseado no lado obscuro dos homens. Mas dizer às pessoas que existe um assassino real embaixo das águas parece realmente um exagero. Ou não?


Recentemente resolvi embarcar nesta montanha russa novamente, queria observar se toda a minha fascinação pelo filme era devido a minha larga imaginação infantil ou se realmente o brilhantismo do longa ia me agarrar pelas pernas mais uma vez. Bem, constatei que o filme está longe de ser datado. Tudo nele é como um complexo quebra-cabeça onde é difícil imaginar como seria o produto final se faltasse uma das peças. Claro que Bruce não é tão verossímil assim depois de uma reprise, mas depois de mais de sessenta minutos de tensão, quando ele resolve aparecer você já está acreditando que aquele robô desengonçado é um temido assassino dos sete mares. Antes do apoteótico final, ao qual ele “sobe” em cima do barco, demonstrando quem é que manda naquele pedaço, ficamos realmente aterrorizados, porque simplesmente na maior parte do tempo só vemos a calmaria das águas sendo cortada por sua amedrontadora barbatana.

E a história nos permite, mesmo com um cenário tão improvável à época para os telespectadores, uma ligação. Martin Brody (Roy Scheider), o protagonista, decide aceitar o emprego de xerife da cidade litorânea de Amity com o intuito de fugir da violência das grandes metrópoles. Sua maior preocupação no novo emprego é em controlar brigas de vizinhos e garotos malcriados. Até o dia que encontram o corpo de uma jovem destroçada na praia. A sua luta se dá em duas frentes, se fazer acreditar diante daqueles que prometeu proteger de que algo maior os ameaça e não permitir que tamanha violência chegue à sua família. E, ao contrário de filmes de assassinos, onde existe um grupo específico que é perseguido, em Tubarão há algo que ataca indistintamente, de crianças a cães (algo raro de acontecer até em filmes do gênero).

Tubarão não deixa de ser o velho e conhecido bicho-papão ou, para nacionalizar mais, o homem-do-saco. Ele está sempre à espreita, como nossas mães e tias sempre fazem questão de lembrar, embaixo das nossas camas, dentro do guarda-roupa ou escondido em um canto escuro da casa. É o medo mais primitivo do ser humano. Não vemos, mas sabemos que ele nos vê e está lá, só basta um deslize para ele conseguir o que quer: pegar eu e você. A mensagem do filme é clara: a paz e a segurança são uma utopia social, criada pelos homens. O que existe é um pequeno véu de momentânea tranqüilidade. E o terror aqui é mais profundo e incontrolável do que aqueles que vemos pela TV nos noticiários, porque ele é natural. É um aviso da natureza lembrando que fazemos parte dela, e que além das leis racionais que seguimos, existe uma maior que nos rege. A música tema aterroriza por anunciar a violência, mas essa mesma violência chega sem avisos, sem trilha sonora, na vida real não vemos e nem ouvimos quando ela vem. Ela simplesmente desaba sobre nós. E quando, no filme, o homem decide tomar as rédeas da situação, indo à caça do monstro, a história revela que por mais que sejamos racionais nunca estamos preparados para enfrentar algo além da compreensão humana. A cena em que o experiente caçador Quint (Robert Shaw) é devorado vivo diante dos seus colegas de barco é uma exemplificação da reação humana diante dos desastres naturais, aqueles que o homem por séculos tenta entender, controlar, dominar... e não consegue. O erro é tentar racionalizar tais ações, o que pode levar a loucura; julgamos tudo isso violento, mas apenas tomando como parâmetro nossa própria concepção do mundo.

No primeiro rascunho do roteiro, a natureza vencia ao final. Os três caçadores sucumbiam diante da fome do grande tubarão branco. Produtores não gostaram e pediram mudanças, estas quais foram filmadas e aplaudidas durante as sessões de cinema. Depois de tanto sangue derramado, todos queriam vingança, queriam se livrar daquele medo incontrolável que permeava suas mentes. Os telespectadores têm a necessidade de sair do cinema com a sensação de segurança, que ao final tudo vai acabar bem, sempre. E isso foi dado ao público, que saiu satisfeito em ter seu medo dissolvido com a coragem e inteligência do homem representado pelo protagonista. Porém, observar os dois sobreviventes nadando, ao final, na imensidão do mar, acaba por deixar uma mensagem mais sutil. Ainda somos pequenos diante da grandeza da natureza. O mar acaba se tornando símbolo dos nossos maiores medos: imenso, desconhecido, cheio de possibilidades. E sobreviver mergulhado nele é uma batalha cruel, travada constantemente por qualquer coisa viva.

Spielberg voltaria ao tema décadas depois com Jurassic Park, onde, claramente, a sensação de controle é colocada como uma mera ilusão. Mas Tubarão, junto com Os Pássaros, de Hitchcock, é uma das muitas representações do medo que Hollywood soube tão bem massificar; o caso aqui é da natureza versus o homem, o terror mais primitivo, talvez o primeiro, e cada vez mais distante do nosso “seguro” cotidiano, mas que vez ou outra o cinema ou a própria natureza nos trata de recordar.


TRAILER> TUBARÃO (Jaws)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CLÁSSICOS DO CINEMA> DOUTOR JIVAGO




Diretor> David Lean (1965)
Elenco> Omar Shariff, Julie Christie, Geraldine Chaplin
Duração> 197 minutos

O drama Dr. Jivago, um dos maiores épicos do cinema, tem como cenário a Revolução Russa. Ali, seguimos o idealista Jivago (Omar Sharif), médico e poeta que, casado com a aristocrata Tonya (Geraldine Chaplin), tem que conviver com os encontros e desencontros com seu verdadeiro Amor: Lara (Julie Christie).

Quando Doutor Jivago chegou aos cinemas, em 1965, ao contrário do que muitos pensam, não foi um sucesso imediato. Logo na primeira semana, os críticos olharam com antipatia a história de amor que atravessa a Revolução Russa, a ponto do Diretor, David Lean, jurar nunca fazer outro filme. Nada mais injusto, principalmente se observamos a grande jornada que a produção teve que fazer para chegar às telas.

Baseado no romance do autor russo Boris Pasternak, o calhamaço de quase seiscentas páginas, foi reduzido a um roteiro de cerca de 250 folhas por Robert Bolt. David Lean, depois do sucesso de Lawrence da Arabia, era o nome mais indicado para dar vida ao épico literário. Um dos primeiros entraves enfrentados foi a locação, o produtor Carlo Ponti desejava rodar na União Soviética, mas o governo proibiu. Lean visitou a Ioguslávia e os países escandinavos, mas a burocracia e o clima acabaram se tornando obstáculos para a produção. Assim, o filme teve que ser praticamente filmado na Espanha – os cenários que retratam Moscou demoraram cerca de 18 meses para serem construídos - onde não teve problemas com o tempo, mas sim com o momento político. Na época, a Espanha estava sobre o regime do general Francisco Franco, que acompanhou parte das gravações, causando um grande desconforto nos figurantes.

Enquanto ao elenco, existiam controvérsias entre os produtores e o diretor. Carlo Ponti queria sua mulher, a atriz Sophia Loren, no papel de Lara, David Lean não aceitou, alegando que a atriz era alta demais para o papel, ganhou Julie Christie. Omar Sharif tinha sido convidado para fazer Pasha, marido de Lara, e acabou recebendo de presente o médico poeta Jivago. Audrey Hepburn seria Tonya, desejo que se desfez depois que Geraldine Chaplin fez o teste para o papel, encantando o diretor.
A trilha sonora, um dos componentes fundamentais de Dr. Jivago, teve seus momentos de discussão. Lean não queria Maurice Jarre, achava o compositor francês muito meloso. No fim das contas, o Tema de Lara foi o grande chamariz do drama e vendeu cerca de 600 mil cópias na época do lançamento e arrematou o Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Em renda, Doutor Jivago só perde para E o vento levou, ficando na segunda posição dos filmes mais rentáveis da MGM e, ajustado a inflação (de 2010), em oitavo em arrecadação.
Hoje, para os jovens cinéfilos, deve ser difícil acompanhar a tomadas longas e abertas de Dr. Jivago. Mas uma coisa não mudou, a história de amor que sobrevive a Revolução Russa e a guerra, não se tornou datado, emociona ainda por sua grandiosidade e beleza, característica típicas dos grandes épicos que o cinema, infelizmente, não produz mais.